Explicador · Custos
A regra dos 30% pode criar uma autonomia que não existe
O fator existe e é oficial. O que não existe é a regra de bolso que a internet criou a partir dele.
Autoria
Dados de
Válido até
Quando o Inmetro alterar a metodologia do PBE Veicular ou publicar novo ciclo com regra diferente.
Publicado em

Existe uma regra de bolso circulando em fórum e em blog de carro: pegue a autonomia que a marca anuncia, multiplique por 0,7, e você tem o número brasileiro. A regra nasceu de um fato verdadeiro, e mesmo assim ela está errada.
O fato verdadeiro
O Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular, do Inmetro, aplica de fato um fator de 0,7 antes de declarar a autonomia na etiqueta. O ensaio produz uma distância combinada a partir dos ciclos urbano e de estrada, e sobre esse resultado incide uma redução de 30%.
Em híbrido plug-in, a lógica é a mesma: a autonomia exclusivamente elétrica é ponderada entre os dois ciclos e também recebe o fator antes de virar o número da etiqueta.
É um fator regulatório de ajuste. Ele existe para aproximar o resultado de laboratório do que acontece na rua, e o próprio Inmetro reconhece que forma de dirigir, trânsito, clima, velocidade, ar-condicionado, carga, pneus, manutenção e estado da via alteram o consumo.
Por que a regra de bolso não funciona
O fator é aplicado dentro da metodologia brasileira, sobre o resultado do ensaio brasileiro correspondente. Ele não é uma taxa de conversão entre ciclos.
Então não é correto dizer que PBEV é 70% do WLTP, nem 70% do CLTC, nem 70% do número que aparece no anúncio. E não é correto pegar uma autonomia qualquer encontrada na internet e multiplicá-la por 0,7 esperando chegar ao valor de etiqueta.
Os ciclos estrangeiros medem percursos diferentes, com perfis de velocidade diferentes, em condições diferentes. Duas reduções de 30% aplicadas a duas bases diferentes não produzem o mesmo destino.
O que também não se pode prometer
O ajuste aproxima o laboratório do cotidiano, mas não garante o cotidiano de ninguém em particular. O número da etiqueta não é uma promessa de quilometragem para o seu trajeto.
A documentação histórica do programa registra que fatores derivados de trabalhos da agência ambiental norte-americana indicavam que cerca de 90% dos usuários obtinham resultados dentro de aproximadamente 20% para mais ou para menos em relação aos valores declarados. É uma faixa, não uma garantia — e ela também não vale como regra de conversão.
Como escrever isso sem distorcer
Materiais oficiais chegaram a chamar o valor ajustado de "autonomia real". A redação mais precisa é outra: autonomia oficial do PBEV, ajustada para aproximar o resultado laboratorial das condições de uso cotidiano.
A frase que este portal evita é "o carro fará tantos quilômetros no mundo real". O resultado que uma pessoa obtém pode ser maior ou menor, e dizer o contrário é vender certeza que o ensaio não emite.
E quando só existe o número estrangeiro
Quando existe valor do PBEV para uma versão, ele é a referência de autonomia oficial no Brasil. Quando não existe, o correto não é estimá-lo: é dizer que aquela versão não tem número brasileiro publicado, e identificar explicitamente o ciclo do número que se está citando.
A medida foi contestada quando entrou em vigor
O Inmetro justifica o deflator como aproximação das condições reais de uso. Quando a regra entrou em vigor, em 2023, montadoras e a associação do setor contestaram a decisão publicamente.
O argumento central foi que a exigência penalizava o carro elétrico ao retirar 30% da autonomia dos próprios testes do Inmetro, sem exigência equivalente para os veículos a combustão, e que uma mudança dessa magnitude foi feita sem debate com o setor antes da publicação da portaria. A Volvo afirmou, na ocasião, que a autonomia real de seus veículos pode superar a da etiqueta.
A associação que encabeçou a crítica representa o setor de eletrificados, e à época seu presidente acumulava cargo de direção em uma das montadoras de elétricos com operação no Brasil. Isso não invalida o argumento — apenas diz quem o faz e o que essa parte ganha se ele for aceito.
Também foi levantado que a norma americana em que o Inmetro se apoia amadureceu ao longo de anos, num mercado com participação de elétricos perto de 10%, enquanto no Brasil eles eram 0,4% das vendas no ano anterior.
Não localizamos teste independente brasileiro que arbitre a questão. O que existe é um órgão federal aplicando um fator e um setor dizendo que ele é excessivo — e nenhuma medição de terceiro entre os dois.
Fontes
- P1
Como é calculado o consumo dos carros elétricos
Inmetro · acesso em
Invalida esta fonte: Quando o Inmetro alterar a metodologia de cálculo ou reescrever esta página de perguntas frequentes.
- P1
Tabelas de eficiência energética — veículos automotivos (PBE Veicular)
Inmetro · acesso em
Invalida esta fonte: Quando o Inmetro publicar nova edição da tabela do PBE Veicular.
- P1
Inmetro lança tabela do PBEV 2023 em sua 15ª edição
Inmetro · acesso em
Invalida esta fonte: Quando o Inmetro alterar o fator de correção aplicado ao ensaio de autonomia ou publicar nota que o revogue.
- P3
Nova tabela do Inmetro para carros elétricos é alvo de críticas
CanalEnergia · acesso em
Invalida esta fonte: Quando surgir teste independente brasileiro que arbitre a disputa entre o Inmetro e o setor sobre o deflator.
- P1
EPA test procedure for EVs and PHEVs
U.S. Environmental Protection Agency · acesso em
Invalida esta fonte: Quando a EPA publicar revisão do procedimento de ensaio.
O que significam os níveis acima
- P1
- Fonte primária oficial, sem interesse comercial
- P3
- Imprensa

Análise · Bateria e garantia
8 anos de garantia na bateria parecem iguais. Não são.

Explicador · Custos